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Comunicação para cientistas - Parte 2

Como cientista, você deve compartilhar seu trabalho de pesquisa com os outros cientistas e sociedade através de várias formas. Provavelmente a mais exigente dessas formas é o artigo publicado em uma revista científica. Esses artigos têm elevados padrões de qualidade e eles são formalmente divulgados e arquivados. Por conseguinte, constituem valiosas referências. De fato, o número de artigos que você publica e sua importância (como sugerido por seu fator de impacto) são muitas vezes vistos como um reflexo de suas realizações científicas. Escrever artigos científicos de alta qualidade leva tempo, mas é um tempo bem investido.


Como você deve ter notado, no entanto, muitos trabalhos científicos não conseguem se comunicar com eficácia para o seu público. Eles se concentram mais nos autores, em vez dos leitores, ao não esclarecerem a motivação para o trabalho ou incluindo detalhes desnecessários. Ou eles tentam impressionar os leitores, em vez de informá-los. Como resultado, eles são interessantes ou compreensíveis por apenas um pequeno conjunto de leitores altamente especializados. Artigos científicos eficazes, ao contrário, são interessantes e úteis para muitos leitores, incluindo os recém-chegados ao campo.

Este conteúdo é parte de um ebook da revista Nature. Não se esqueça de ver a primeira parte dele, publicada aqui no blog: Comunicação para cientistas - Parte 1.

Esta unidade irá ajudá-lo a escrever melhores artigos científicos em Inglês. Em particular, ele irá ajudá-lo a selecionar e organizar o seu conteúdo, elaborar o seu artigo, e rever a sua escrita de modo que seu trabalho final seja útil para um público amplo - não apenas alguns especialistas.

1. PREPARANDO O ARTIGO CIENTÍFICO

Os artigos científicos são produzir para partilhar o seu próprio trabalho de pesquisa original com outros cientistas ou para rever as pesquisas realizadas por outros. Como tal, eles são essenciais para a evolução da ciência moderna, em que o trabalho de um cientista é constrúido sobre o dos outros. Para alcançar seu objetivo, os artigos devem ter por objetivo informar e não impressionar. Eles devem ser de fácil leitura - que é, claro, precisa e concisa. Eles são mais propensos a serem citados por outros cientistas se eles são úteis, em vez de crípticos ou egocêntricos.

Os artigos científicos normalmente têm dois públicos: em primeiro lugar, os avaliadores, que ajudam o editor da revista a decidir se um artigo é adequado para publicação; e, segundo, os próprios leitores de revistas, que podem ser mais ou menos bem informados sobre o tópico abordado no artigo. Para ser aceito pelos avaliadores e citado pelos leitores, os artigos devem fazer mais do que simplesmente apresentar um relato cronológico do trabalho de investigação. Em vez disso, eles devem convencer seu público que a pesquisa apresentada é importante, válida e pertinente a outros cientistas no mesmo campo. Para isso, eles devem enfatizar tanto a motivação para o trabalho e o resultado dele, e devem incluir elementos de prova suficientes para estabelecer a validade desse resultado.

Artigos que relatam trabalho experimental são muitas vezes estruturados cronologicamente em cinco seções: a primeira é a Introdução, em seguida, Materiais e Métodos, Resultados e Discussão (em conjunto, estas três seções compõem o corpo do artigo), e, finalmente, a Conclusão.

A seção de Introdução esclarece a motivação para o trabalho apresentado e prepara os leitores para a estrutura do artigo.

A seção de Material e Métodos fornece detalhes suficientes para que outros cientistas possam reproduzir as experiências apresentadas no documento. Em algumas revistas, esta informação é colocada em um apêndice, porque não é o que a maioria dos leitores querem saber primeiro.

As seções de Resultados e Discussão apresentam e discutem os resultados da investigação, respectivamente. Elas são muitas vezes úteis combinadas em uma seção única, porque os leitores raramente podem compreender os resultados sozinho, sem interpretação de acompanhamento - e por isso é preciso muitas vezes dizer o que os resultados significam.

A seção de Conclusão apresenta o resultado do trabalho e da interpretação dos resultados a um nível mais alto de abstração do que a discussão, relacionando essas conclusões à motivação afirmada na Introdução.

(Trabalhos relatando algo diferente dos experimentos ou investigações, como um novo método ou tecnologia, tipicamente têm seções diferentes em seu corpo, mas eles incluem as mesmas seções de Introdução e Conclusão, como descrito acima.)

Embora a estrutura acima reflita a progressão da maioria dos projetos de pesquisa, trabalhos eficazes tipicamente quebram a cronologia em pelo menos três maneiras de apresentar o seu conteúdo na ordem em que o público provavelmente irá querer lê-lo. Em primeiro lugar, eles resumem a motivação para a realização do estudo, e apresentam o resultado do trabalho em um Resumo (abstract), localizado antes da Introdução. Em certo sentido, eles revelam o começo e o fim da história - brevemente - antes de fornecer a história completa. Em segundo lugar, as partes que são mais detalhadas ou menos importantes vão para a extremidade do artigo, em um ou mais apêndices  (em anexo ao artigo), de modo que estas partes não ficam no caminho dos leitores. Finalmente, eles estruturam o conteúdo no corpo do artigo, indicando primeiro o que os leitores devem se lembrar (por exemplo, como a primeira frase de um parágrafo) e, em seguida, apresentam provas para apoiar esta afirmação.

1.1 INTRODUÇÃO

A introdução reproduzida aqui apresenta os quatro componentes que os leitores acham útil quando começam a ler uma revista científica. Na seção de Introdução, devemos afirmar a motivação para o trabalho apresentado e preparar os leitores para a estrutura do artigo. Esses quatro componente essenciais numa boa introdução, são: contextualização sobre o tema do estudo, necessidades que existem, tarefas e o objetivo do trabalho.

Em primeiro lugar, forneça algum contexto para orientar os leitores que estão menos familiarizados com o tema e para estabelecer a importância de seu trabalho. Em segundo lugar, afirme a necessidade de seu trabalho, como uma oposição entre o que a comunidade científica tem atualmente e o que quer. Em terceiro lugar, indique que você tem feito um esforço para atender à necessidade (esta é a tarefa).

Finalmente, visualize o restante do artigo para preparar mentalmente os leitores para a sua estrutura, no objetivo do trabalho.

1.1.1 Contexto e necessidade
No início da Introdução, o contexto deve ser como um funil: começa amplo e progressivamente diminui até chegar na questão abordada no artigo. Para despertar o interesse em seu público - nos avaliadores e leitores de revistas semelhantes - forneça uma motivação poderosa para o trabalho apresentado no seu artigo. Porém, lembre-se: o fato de que um fenômeno nunca foi estudada antes, não é, por si só, um motivo para estudar esse fenômeno.

Escreva o contexto de uma forma que agrada a uma ampla gama de leitores e leva para a necessidade do trabalho. Forneça apenas o que vai ajudar os leitores a entenderem melhor a necessidade e, principalmente, a importância de sua pesquisa. Considere ancorar o contexto no tempo, usando frases como recentemente, nos últimos 10 anos, ou desde o início de 1990.

Transmita a necessidade do trabalho como uma oposição entre situações reais e desejados. Comece declarando a situação real (o que temos) como uma continuação direta do contexto. Se você acha que deve explicar conquistas recentes em muitos detalhes - por exemplo, em mais de um ou dois parágrafos - considere mover os detalhes para uma seção intitulada Estado da arte (ou algo similar) após a introdução, mas não forneça uma breve ideia da situação real na Introdução. Em seguida, indique a situação desejada (o que queremos). Enfatize o contraste entre as situações reais e desejadas com palavras como, mas, no entanto, ou infelizmente.

Uma maneira elegante de expressar a parte desejada da necessidade é combiná-la com a tarefa em uma única frase. Esta frase expressa o primeiro objetivo, a ação empreendida para alcançar esse objetivo, criando assim uma ligação forte e elegante entre necessidade e tarefa. Aqui estão três exemplos de uma tal combinação:

Para confirmar esta premissa, foram estudados os efeitos de uma gama de inibidores de canais de conexina no...

Para avaliar se tais sensores de várias bobinas são melhores do que os que executam sinais únicos, testamos dois deles - o DuoPXK e o GEMM3 - em um campo onde...

Para formar uma melhor visualização da distribuição global e infecciosidade deste patógeno, foram examinados 1.645 anfíbios jovens e adultos coletados de 27 países entre 1984 e 2006, para a presença de...



1.1.2 Tarefa e objetivo
A Introdução é geralmente mais clara e lógica quando se separa o que os autores fizeram (a tarefa) do que o próprio objetivo do trabalho. Em outras palavras, a tarefa especifica a sua contribuição, como um cientista, enquanto que o objetivo do documento prepara os leitores para a estrutura do papel, permitindo assim a leitura focada ou seletiva.

Para a tarefa, é importante usar quem fez o trabalho (normalmente, você e seus colegas) como o sujeito da frase: nós ou talvez os autores; usar um verbo que expressa uma ação de investigação: nós medimos, nós calculamos, (sempre definir esse verbo no tempo passado).

Os três exemplos que se seguem são tarefas bem formuladas:

Para confirmar esta premissa, foram estudados os efeitos de uma gama de inibidores de canais de conexina, tais como os peptídeos miméticos de conexina Gap26 e Gap27 e anticorpos anti-peptídeos, na sinalização de cálcio em células cardíacas e as células HeLa que expressam as conexinas.

Durante os experimentos controlados, nós investigamos a influência das condições de contorno HMP sobre os fluxos do fígado.

Para combater esse problema, desenvolvemos uma nova técnica de verificação de software chamado de erros alheios, que calcula os valores de erros com base na execução real do programa.

A lista a seguir fornece exemplos de verbos que exprimem ações de investigação e são muito importantes em todas as pesquisas científicas:


Para o objetivo do trabalho, use o próprio trabalho como o sujeito da frase: este trabalho, esta revisão, etc, usando um verbo que expressa uma ação de comunicação: apresenta, resume, etc, e sempre defina o verbo no presente do indicativo.

Os três exemplos que se seguem são apropriados objetivos de trabalhos:

Este artigo esclarece o papel de CxHc nas oscilações de cálcio em miócitos cardíacos neonatais e transientes de cálcio induzidos por ATP em células HL originado átrio cardíaco e em células HeLa expressando conexina 43 ou 26.

Este artigo apresenta os efeitos fluxo induzido pelo aumento da pressão da artéria hepática-e obstruindo a veia cava inferior.

Este artigo discute a teoria por trás dos erros alheios e mostra como essa abordagem pode ser aplicada para a resistência à adulteração do software local e da autenticação remota de código.

A lista a seguir fornece exemplos de verbos que expressam ações de comunicação:




1.2 O CORPO DO TRABALHO

Mesmo a estrutura mais lógica é de pouca utilidade se os leitores não verem e entenderem como progredirem na leitura de um artigo. Assim, você organiza o corpo de seu artigo em seções e subseções, sempre preparando os seus leitores para a estrutura à frente em todos os níveis. Você já fez isso na objetivo do documento no final da introdução. Sendo assim, ao final de cada sessão, escreva um parágrafo que prepara o leitor para a próxima seção ou subseção.

Apesar dos artigos poderem ser organizados em seções, em muitos aspectos, os artigos de trabalhos experimentais tipicamente incluem Materiais e Métodos e Resultados e Discussão em seu corpo. Em qualquer caso, os parágrafos nestas seções devem começar com uma frase tópico para preparar os leitores para os seus conteúdos, permitindo uma leitura seletiva, e - de preferência - passando uma mensagem.

1.2.1. Materiais e métodos
Esta seção deve expressar a ideia principal em primeiro lugar, em uma frase tema, para que leitores saibam imediatamente do que se trata. A maioria das seções de Materiais e Métodos são chatas de ler, mas eles não precisam ser. Para fazer esta seção ser interessante, explique as escolhas que você fez em seu procedimento experimental: O que justifica a utilização de um determinado composto, concentração ou dimensão? O que é especial, inesperado ou diferente em sua abordagem? Mencione essas coisas no início desta seção, de preferência na primeira frase. Se você usar uma norma ou um procedimento habitual, mencione o que vem em seguida também. Não faça os leitores adivinharem: certifique-se de que a primeira frase do parágrafo lhes dê uma ideia clara do que o parágrafo inteiro se trata. Se você acha que não pode fazer isso, considere o uso de uma tabela ou talvez um diagrama esquemático, em vez de um parágrafo de texto.

1.2.2. Resultados e discussão
As tradicionais seções de Resultados e Discussão devem ser combinadas, porque os resultados fazem pouco sentido para a maioria dos leitores, sem interpretação.

Ao relatar e discutir seus resultados, não force os seus leitores a passarem por tudo o que você fez em ordem cronológica. Em vez disso, indique a mensagem de cada parágrafo inicial: transmita na primeira frase o que você quer que os leitores se lembrem do parágrafo como um todo. Foque no que aconteceu e não no fato que você observou. Em seguida, desenvolva a sua mensagem no restante do parágrafo, incluindo apenas as informações que você acha que precisa convencer o seu público.

1.2.3. Conclusão
Na seção de Conclusão, indique o resultado mais importante de seu trabalho. Não basta resumir os pontos já realizados no corpo - em vez disso, interprete as suas descobertas em um nível mais alto de abstração. Mostre que, ou em que medida, você conseguiu abordar a necessidade indicada na sua introdução. Ao mesmo tempo, não se concentrar em si mesmo (por exemplo, reafirmar tudo o que você fez). Em vez disso, mostre o que seus resultados significam para os leitores. Faça a conclusão ser interessante e memorável para eles.

No final de sua conclusão, considere a inclusão de perspectivas - ou seja, uma idéia do que poderia ou ainda deve ser feito em relação à questão abordada no artigo. Se você incluir perspectivas, esclareça à quem você está se referindo, se a si mesmo e seus colegas (Nos próximos meses, vamos...) ou fazendo um convite para os leitores (Uma questão que permanece é...).

Se o seu papel inclui uma introdução bem estruturada e um resumo eficaz, você não precisa repetir qualquer um dos dois na conclusão. Em particular, não reafirme o que você tem feito ou o que a revista faz. Em vez disso, se concentre no que você encontrou e, principalmente, sobre o que seus resultados significam. Não tenha medo de escrever uma pequena conclusão: se você pode concluir em apenas algumas frases, dada a rica discussão no corpo do papel, faça isso. (Em outras palavras, resista à tentação de repetir o objetivo citado na introdução numa conclusão, isso te deixará livre da falsa crença de que uma longa conclusão vai parecer mais impressionante.)

1.3. O RESUMO (ABSTRACT)
Em pouco menos de 200 palavras, o resumo transmite a motivação e os resultados do trabalho, com alguma precisão, mas sem intimidar os leitores pelo seu comprimento. Os leitores de um artigo científico leem o resumo com duas finalidades: para decidir se eles querem ler o documento completo, ou se prepararem para os detalhes apresentados no artigo. Um resumo eficaz ajuda os leitores a alcançar esses dois objetivos. Em particular, devido a normalmente ser lido antes do trabalho completo, o resumo deve apresentar o que os leitores estão interessados ​​principalmente, isto é, o que eles querem saber antes de tudo e acima de tudo.

Normalmente, os leitores estão interessados ​​principalmente na informação apresentada na Introdução e Conclusão de um artigo. Primeiramente, eles querem saber a motivação para o trabalho apresentado e o resultado deste trabalho. Então (e só então) o leitor mais especializado entre eles pode querer saber os detalhes do trabalho. Assim, um resumo eficaz concentra-se em motivação e resultado - isto é, um paralelo da Introdução e Conclusão do seu artigo.

Assim, você pode pensar em um resumo como tendo duas partes distintas - Motivação e resultados - mesmo que sejam editados em um único parágrafo. Para a primeira parte, siga a mesma estrutura que a Introdução: estado do contexto, a necessidade, a tarefa e o objetivo do trabalho. Para a segunda parte, mencione os seus resultados (o que foi encontrado) e, especialmente, sua conclusão (interpretação desses resultados). Se for o caso, finaliza com perspectivas, como na seção de conclusão seção do seu artigo.

Embora a estrutura do resumo seja paralela à Introdução e Conclusão, ele difere dessas seções no público que aborda. O resumo é lido por muitos leitores diferentes, do mais especializado ao menos especializado entre o público-alvo. Num certo sentido, deve ser a parte menos especializada e simples do papel. Qualquer cientista que lê-lo, especializado no tema ou não, deve ser capaz de entender: por que o trabalho foi realizado e por que é importante (contexto e necessidade), o que os autores fizeram (tarefa), o que propuseram a fazer no trabalho (objeto), o que encontraram (resultados), o que esses resultados significam (a conclusão), e, possivelmente, o que os próximos passos indicam (perspectivas). Em contrapartida, o artigo completo é normalmente lido por apenas especialistas - sua Introdução e Conclusão serão então mais mais detalhadas do que o resumo.

Uma resumo bem eficaz sobre um trabalho pode ser plenamente compreendido, mesmo quando não é disponibilizado o artigo completo. Para este fim, evite se referir a figuras ou a bibliografia em resumos. Além disso, introduza siglas de forma abstrata (se necessário), e faça novamente no artigo completo mas com a explicação dela (por exemplo, você pode citar ATP no resumo e no artigo completo escrever, pelo menos uma vez, Trifosfato de Adenosina - ATP, do inglês Adenosine Triphosphate).

A próxima seção deste ebook é: Elaborando seu Artigo Científico. Fique atento que em breve a postarei! Enquanto isso, não deixe de ver a primeira seção: Comunicação para cientistas - Parte 1, que trata dos seguintes tópicos:

- Comunicando como um cientista
- Escrevendo artigos científicos
- Escrevendo correspondências
- Ministrando apresentações orais
- Interagindo durante sessões de conferências
- Comunicando em sala de aula

Boa leitura!

Comunicação para cientistas - Parte 1

Se fazer ciência não é uma tarefa fácil, como você acha que é transmitir um conhecimento científico para a comunidade científica e também para a sociedade como um todo? Por mais para muitas pessoas essa seja uma tarefa simples, na verdade, não é. Muitos pesquisadores enfrentam problemas no modo como escrevem suas publicações. Pensando nisso e na preparação dos futuros cientistas, a revista Nature, através da sessão educacional Scitable, lançou um ebook sobre a comunicação em inglês para cientistas (em inglês English Communication for Scientists).


O organizador deste material é o pesquisador Dr. Jean-luc Doumont, que contou com a colaboração da Dra. Laura Grossenbacher, Dra. Christina Matta e com as ilustrações do Dr. Jorge Cham. Para estabelecer uma coerência lógica e auxiliar os leitores na compreensão do tema, este ebook é dividido em seis sessões:

> Comunicando como um cientista
> Escrevendo artigos científicos
> Escrevendo correspondências
> Ministrando apresentações orais
> Interagindo durante sessões de conferências
> Comunicando em sala de aula

Como o ebook original é muito longo, eu vou resumi-lo em diferentes posts para evitar que a leitura seja entediante em um único post. Tenho certeza que este conteúdo será de grande valia para você. A comunicação é uma parte integral da sua performance como cientista. Seus artigos científicos escritos servem como uma medida da sua produtividade científica e promovem um corpo duradouro de conhecimento, no qual outros cientistas poderão utilizar para construírem suas pesquisas. Por isso, se quer ser um bom cientista, leia com muita atenção este texto.

PARTE 1: COMUNICANDO COMO UM CIENTISTA
1.1. Entendendo a comunicação
A comunicação eficaz de uma mensagem envolve basicamente a garantia de que o público entenda a ideia que você está tentando transmitir, incentivando o público a fazer algo com esta informação, aplicando-a ou talvez enviando comentários através de outros artigos. A mensagem transmitida não é apenas uma informação, pelo contrário, ela é uma interpretação do conhecimento científico obtido, ela diz o que essa informação significa para o público. A informação pode ser como uma resposta de uma pergunta do tipo "o que você encontrou na sua investigação?" ou "o que seus resultados significam para o seu público?".

Portanto, a comunicação eficaz é centrada no seu público. A sua comunicação se concentra no que o seu público precisa ou pretende aprender, e não no que você pensa ou sente. Por isso, deve sempre se esforçar para que as coisas não sejam vistas somente em seu ponto de vista, mas sim, pense no modo como a sua informação deverá ser interessante tanto para os pesquisadores de sua área e com experiência, como também para outros pesquisadores que tenham interesses semelhantes ao seu.

Para otimizar o seu conteúdo, considere não apenas o seu público específico mas também as qualidades inerentes de outras áreas que possam tirar proveito das suas informações. Os leitores não precisam ler todo o seu artigo para entender o que a sua pesquisa tem a informar, e, eles podem ler e reler quantas vezes quiserem. Por esta razão, nos artigos científicos escritos, é possível convencer o seu público através de evidências sólidas, detalhando os seus resultados, estruturando estas evidências, permitindo uma leitura seletiva. Em contraste, ouvintes de uma apresentação oral não podem escolher o que vão ouvir e qual será a ordem das informações que eles ouvem. Os ouvintes são geralmente pouco interessados em detalhes que poderiam ser facilmente observados em um artigo, eles podem interagir com você em discussões através de perguntas, ou, podem também te contatar após a apresentação. Nas apresentações orais, você convence um público, articulando-se de forma lógica.

Quando uma apresentação oral se baseia em um documento escrito, como uma apresentação sobre um artigo que está sendo escrito, ou um trabalho de doutorado, você deve ser muito mais seletivo na sua apresentação do que em seu documento - a ideia jamais é dizer em voz alta tudo que você já colocou por escrito.

1.2. Escrever ou falar para audiências específicas
Como cientista, você pode achar que é um desafio apresentar o seu trabalho - ou explicar conceitos científicos em geral - para um público menos especializado. Mais desafiador ainda, no entanto, é apresentar suas informações para um público misto de especialistas e não-especialistas. Aqui estão algumas dicas específicas para estas duas situações.


Escrever ou falar para não especialistas
Se você está dirigindo a pessoas especializadas ou menos especializadas, uma boa ideia para transmitir sua pesquisa, para que possam se relacionar com ela, é preencher a lacuna entre o que sabem ou estão interessados ​​em e o que você vai apresentar. Com não especialistas, essa diferença é maior do que com os especialistas. Você pode achar que para estas pessoas seja mais difícil de transmitir a motivação para o seu trabalho.

Não especialistas não têm pontos de comparação. Se você mencionar um valor absoluto, como um consumo de energia de 5 mW, eles podem não saber se isso é uma pequena ou uma grande quantidade para o dispositivo que você descreve, e podem até não saber se é pouco ou muito em geral. Você pode sugerir que o consumo de energia é baixo ou alto, escrevendo algo como "tão pouco quanto 5 mW" ou "até 5 mW," mas é mais útil para fornecer o ponto de comparação que faltava na forma de um valor relativo, como "30 por cento menos do que o dispositivo mais econômico até o momento" ou "três vezes o consumo médio de energia de dispositivos do tipo X." Freqüentemente, você pode combinar utilmente um valor absoluto, com um parente, como em "5 mW, que é 30 por cento menos do que..".

O termômetro mais legal. Neste artigo, Armand Niederberger escreve sobre um tema complexo (medir temperaturas nanokelvin por termometria spin-gradiente) para um público não especializado. Entre outras estratégias, ele projetou uma forte analogia visual para um gradiente de centrifugação em um gás quântico.
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Um tipo de comparação que é útil para todos os públicos, mas especialmente para os menos especializados, incluindo os estudantes, é a analogia. Quando você traça um paralelo entre um novo conceito que está a tentar explicar e que é familiar para (ou facilmente compreendida) o público, você aumenta a probabilidade de que o público entenda o conceito e se lembre dele. Por exemplo, você poderia dizer que o genoma humano codificado no DNA é como instruções armazenadas em uma biblioteca. O poder de uma analogia depende de como o público está familiarizado com o ponto de comparação (aqui, a biblioteca), e também sobre a forma como sempre você pode levar a analogia através de seu documento ou apresentação. Por exemplo, se você pode comparar significativamente cromossomos como sendo os livros desta biblioteca e genes para as páginas desses livros, então você tem uma mais potente analogia.

Não especialistas também não têm referências visuais, eles não podem imaginar automaticamente o que você está falando. O material visual adequado para todos os públicos, mas crucial para não especialistas, pode incluir desenhos e fotografias. Os desenhos, que podem abstrair detalhes desnecessários para se concentrar na ideia essencial, são os melhores para explicações conceituais. Em contraste, as fotografias, com sua riqueza visual, dão uma ideia melhor do que a "coisa real" parece.

1.3. Escrever ou falar para audiências mistas
A estratégia essencial para enfrentar um público misto é distinguir entre o que todo mundo precisa ou quer aprender e que apenas alguns deles precisam ou querem aprender, e, em seguida, estruturar sua escrita ou fala em conformidade.

No nível macroscópico (todo o documento ou apresentação) estruturam o conteúdo em níveis de especialização crescente ou decrescente. Para um documento, como um relatório ou artigo, coloque primeiro o que todo mundo precisa ou quer saber, tipicamente em um sumário ou resumo. Para uma apresentação para especialistas e não especialistas, e especialmente quando seu tempo é limitado, foque nos membros da audiência menos especializados (primeiro nível), mas reserve tempo suficiente para focar depois nos especialistas, para fazer perguntas (segundo nível) e, talvez, criar um documento complementar com informações mais detalhadas (terceiro nível). Sinta-se livre para incluir momentos mais especializadas na apresentação em si, para que possa sugerir a sua compreensão mais profunda, mas certifique-se de que esses momentos não impedem que os participantes menos especializados de compreender o restante da apresentação.

No nível microscópico, a oração principal que é nova ou interessante para a maioria dos seus ouvintes, deve ser exposta da melhor forma possível. Por exemplo, considere as seguintes frases:

Optamos por conectores de ouro. O ouro apresenta tanto alta condutividade elétrica quanto excelente resistência à corrosão.
Aqueles que estão bem cientes das propriedades do ouro podem achar que a segunda cláusula da frase é desinteressante ou até mesmo condescendente, enquanto a informação é útil para os leitores menos especializados. A melhor opção é subordinar a segunda cláusula, que é nova para alguns membros da audiência, para a primeira cláusula, que é nova para todos os membros do público, da seguinte forma:

Optamos por conectores de ouro, dada a sua alta condutividade elétrica e excelente resistência à corrosão.
Nesta nova versão, as propriedades do ouro não são apresentadas de forma independente, mas como uma justificativa para a escolha feita. A nova sentença composta é mais interessante para todos os leitores, mas nenhuma informação é perdida para os menos especializados.

RESUMO
Comunicar é uma arte importante para um cientista. Para comunicar de forma eficaz, se esforce para transmitir uma mensagem, não apenas a informação. Concentre-se em seu objetivo, que é o que você quer que seu público faça depois de ler o que você escreveu ou ouvir o que você disse. Para este fim, seja amigo do público - ou seja, identifique o que o público precisa ou quer aprender.

A comunicação é mais eficaz quando se trata satisfatoriamente as necessidades de um público mais amplo. Em particular, um trabalho científico deve fazer sentido - pelo menos em termos gerais - a qualquer pessoa com uma formação científica, tanto hoje como no futuro. Para alcançar este objetivo, se esforce para escrever ou falar de uma maneira simples e direta.

Uma comunicação eficaz faz a ponte entre o conhecimento e interesse do público e o conteúdo do documento ou apresentação. Quando o seu público é menos especializado ou menos motivado, a diferença é mais ampla e superá-la é mais difícil. Ao escrever ou falar especificamente para não-especialistas, lembre-se de incluir os pontos de comparação que não possuem. Mencione os valores relativos, em vez de absolutos, use analogias, forneça representações visuais (com uma ideia de escala), e assim por diante. Ao escrever ou falar para um público altamente heterogêneo, inclua primeiro os assuntos em que todo mundo está interessado e depois o que somente parte do público precisa ou quer aprender. Em todos os casos, cuidado para não superestimar o conhecimento do público sobre o tema ou campo (um erro comum, especialmente em apresentações da conferência), mas sempre respeite a sua inteligência.

Finalizo aqui a primeira parte deste importante material. A segunda parte é "Estruturando um Artigo Científico". 
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